Lizeth Pote pertence a uma geração de estilistas que não contou com a existência de uma indústria têxtil que apoiasse os criadores nacionais. Considera-a uma condição indispensável ao desenvolvimento da moda nacional, pois a escassez de produtos no mercado e o recurso aos mercados externos trazem obstáculos quase intransponíveis aos criadores nacionais.
Nesta entrevista acentua que o relançamento da indústria com base no programa governamental para o sector irá beneficiar sobretudo os que agora se lançam na criação de moda.
O Governo está a implementar um programa de recuperação e de relançamento da indústria têxtil. Que impacto poderá ter no plano da criação de moda?
É oportuno o lançamento deste programa tendo em conta a importância que tem para a actividade dos criadores e não só. Há muito que não temos uma indústria têxtil e de confecções no país.
Este programa governamental vai possibilitar a reabilitação e recuperação do parque da indústria têxtil no país. Não tenho dúvidas de que o seu ressurgimento vai estimular o mercado da moda em Angola. É um grande passo que os criadores vão dar a nível de moda. Nós, os criadores, precisamos de ter o parque têxtil do país funcional. É certo que a recuperação da indústria têxtil vai levar tempo, se tivermos em conta que o programa do Governo também prevê a plantação algodão. É um processo moroso porque o algodão tem de crescer, há o descaroçamento e, posteriormente, a fase em que o mesmo é desfiado.
Penso que não será possível falarmos de reactivação da indústria têxtil enquanto o algodão, uma das principais matérias-primas, continuar a ser importado.
A tendência é para haver mais tecidos de algodão?
É importante que as fábricas têxteis, além de produzir tecidos de algodão, fabriquem também outro tipo de tecidos que possam satisfazer a todos, tanto criadores como consumidores. Acho que, se quisermos ter uma indústria têxtil competitiva, quer do ponto de vista interno como a nível do continente, temos que primar por produzir tecidos de qualidade. Não convém fabricar apenas tecido de fraca qualidade em que as tintas desbotam, como, por exemplo, os que são vendidos na rua.
Quais os contributos apresentados pela Associação dos Criadores de Moda ao Ministério da Indústria?
Sei que a associação tem mantido contactos com o Ministério da Indústria mas, infelizmente, não posso adiantar muito quanto a essa matéria, atendendo a que a associação está meio parada.
Pode apontar algumas das razões para que tal aconteça?
Falta de verbas e várias tentativas falhadas por parte dos membros no sentido de reactivar a associação, ou seja, de torná-la mais funcional. Portanto, o que lhe posso dizer é que nós, os criadores, ainda não fomos consultados pelo Ministério da Indústria para dar o nosso ponto de vista sobre o programa de recuperação e de relançamento da indústria têxtil em Angola.
Como analisa o mercado da moda em Angola tendo em conta a ausência de uma indústria de confecções?
O cenário no mercado da moda em Angola é muito mau. Nós, os criadores, muita das vezes, queremos fazer uma colecção em condições de ser apresentada e somos confrontados com a falta de quase todo tipo de material.
É um pouco incómodo termos, por vezes, de viajar para outros mercados para aí obtermos o material necessário para produzir o que desejamos. Quando estamos a pensar numa colecção e compramos o material no exterior as coisas tornam-se complicadas, porque, muita das vezes, queremos algo e não sabemos onde encontrar. Por palavras mais simples: o mercado da moda em Angola é caracterizado por uma rotura de materiais. Se hoje adquire, por exemplo, fechos verdes e daqui a três meses voltar a precisar do mesmo material já não o encontra. Nunca há a conciliação de cores. Acho que este programa do Governo irá beneficiar menos os criadores mais velhos que a nova geração de criadores que está agora a despontar. Esta vai certamente ter na indústria têxtil uma mais-valia.
As dificuldades dos criadores no mercado da moda são enormes…
Eu, por exemplo, quero montar uma fábrica e sinceramente não sei como fazer. Se pedimos um empréstimo ao banco este exige garantias bancárias e, muito de nós, não dispõem de tais garantias. Temos de arranjar alguém que se responsabilize e muitas das pessoas evitam assumir este tipo de compromissos. Penso que se o Estado se responsabilizasse por estas coisas e nos deixassem trabalhar iríamos vencer. Há aqui um problema. Por outro lado, as fábricas de confecções que existem em Angola não têm uma direcção correcta no plano da criação.
O que se perdeu com a paralisação da indústria têxtil e de confecções no país?
Perdemos muita coisa. Mas deixe que lhe diga que, quando a última fábrica fechou, a “África Têxtil”, eu ainda não estava no mundo da moda. Portanto, tínhamos a fábrica de Benguela, a maior ou uma das maiores de África e a “Textang” um e dois, que, ao encerraram, deixaram os criadores sem alternativas. Tratou-se, de facto, de uma fase muita dura. Para fazer face à situação recorríamos às roupas de fardo, àquelas saias balões, para confeccionar. Apresentámos muitas roupas a desfile com esses tecidos. Perdemos de tal forma que estamos a deixar que Para Lizeth Pote importa apostar na produção de tecidos de qualidade o mercado internacional comercialize tecidos de fraca qualidade que nem são africanos. Tecidos provenientes da China, da Índia, da Tailândia entre outros países.
Face a este quadro menos bom para os criadores de moda é importante que as nossas fábricas têxteis comecem a funcionar.
Que espaço de comercialização terão os tecidos no mercado quando as fábricas voltarem a operar?
Quando um dia começarmos a pôr os nossos tecidos no mercado enfrentaremos seguramente uma outra batalha, pois o mercado está completamento inundado com produtos vindos de fora. Ou se comercializa os tecidos a um preço relativamente mais barato em relação ao que é vendido na rua ou as fábricas vão ficar com o produto amontoado nos armazéns.