CPLP para os povos

segunda-feira
26-07-2010
Edição 89

Com a cimeira hoje em Luanda dos líderes das nações da Comunidade dos Oito, unidas pelo português, abre-se um novo marco no percurso iniciado num tempo que já se mostra afastado, catorze anos, e a respeito do qual a voz da cobrança se vai confundindo com uma estridência de sabor agridoce.

Na verdade, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que vem aqui reunir-se para que o testemunho da presidência rotativa transite de Portugal para Angola, parece ter resvalado para um atoleiro a espaços disfarçado pela sua mão cheia de boas intenções e propósitos declarados.

A suavidade da diplomacia tolhe-lhe a força para o reconhecimento a gritos de que a colheita anda estéril, pobrezinha, com os ganhos absolutamente à míngua e muito difíceis de catalogar, mas o rigor isento de qualquer observador permite mostrar o que não se pode esconder: amontoa-se um défice de eficácia na vida da organização, que só pode deixar exasperado quem dela esperou muito mais. E certamente mais grave do que tudo isso é constatar que a Comunidade não chegou àqueles a quem está(va) dirigida, em primeira e última instância, os povos que se exprimem em português.

Passando com efeito uma rápida vistoria pela América, Europa, Oceania e África, os cantos do Mundo pelos quais a geografia do grupo se reparte, percebe-se sem esforço que franjas assustadoramente importantes da população dos nossos países não sabem sequer que pertencem a uma comunidade linguística com existência formalizada e que, de tempos a tempos, se reúne em cimeiras.

Hoje por hoje, na CPLP são mais os pontos de encravamento que os caminhos percorridos em serenidade. Pode dizer-se, sem exagerar, que a organização vive de pendente em pendente, de acção em acção arrastada no tempo, como sejam o estatuto do cidadão lusófono, a hipótese de fronteiras franqueadas para uma livre circulação das pessoas e o Acordo Ortográfico.

Constata-se que esta espécie de “pacote indesejado” de assuntos da agenda comunitária passa de uma presidência para outra e sem que se possa dizer, com honestidade, que tenha faltado tempo para a sua implementação.

É certo que cada país permanece apenas dois curtos anos à frente da presidência rotativa da organização, em tese pouco tempo para realizações substanciais, mas sabemos todos muito bem que não é esse punhado de meses de trabalho que atrasa o processo.

A política sobrepõe-se-lhe, os Estados resguardam-se nos seus interesses mais caros e os adiamentos percebidos como vitais pelo menos por agora, vão sendo as grandes vedetas de um processo pachorrento que arrasa a própria imagem de eficácia funcional do grupo.

O contexto em que Angola assume a liderança da CPLP é este, portanto.

Nada auspicioso, nada reconfortante, nada tranquilo, pelo que vamos ter pela frente dois anos de olhares incisivos e intensas batalhas de bastidores.

Pelo peso específico que se reconhece no Estado angolano, adivinhase que o grau de exigência se venha a colocar uns bons patamares acima do que vinha sendo normal, até porque fora e dentro da CPLP se tornou impossível de disfarçar o modo trôpego como são dados os passos ligados à sua funcionalidade. Dos equilíbrios da fala dos políticos, para não magoar quem lidera e quem toma decisões, parece estar toda a gente com pouca vontade de continuar a fazer o jogo.

Os povos, por sinais cada vez mais nítidos, parecem querer que lhes seja dita a verdade nua dos factos. E esta é, basicamente: que há países que não parecem muito interessados em deixar as suas fronteiras escancaradas porque acabarão simplesmente “invadidos” – consequência lógica da diferença de comportamento das suas economias -; que o Acordo Ortográfico não o querem muitos enquanto não estiver convincentemente clarificado o que cada um ganha ou perde neste realinhamento do modo de fazer a comunicação escrita, e que o estatuto do cidadão lusófono é para ser percebido, esmiuçado, muito antes de tentar ser quase imposto…

Luís Fernando
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O regresso do comboio

segunda-feira
19-07-2010
Edição 88

Serão muito poucos os sinais que superem a chegada do comboio naquilo que encerra de prova de retorno à normalidade ou de anúncio de modernidade e progresso.

É assim em Angola, no Chile, na Índia ou no Lesotho, como o foi no passado longínquo da América, quando os imigrantes europeus se suplantavam em esforço na conquista do mítico Oeste, terra carregada de promessas de ouro, aventuras e uma mão cheia de abundante riqueza.

Entre nós, o comboio está de volta ao interior. A lendária ligação LuandaDondo, estampa do desenvolvimento das terras que ficam no trajecto e da interacção fácil das populações rurais com a grande cidade, é de novo uma realidade tangível, depois de anos de asfixiante paralisação como prova provada da brutalidade e inutilidade da guerra.

Não é ainda a festa total do comboio, com o seu frenesi, seu ritmo peculiar, sua agitação, as populações em transe, as notícias da cidade e do campo que se entrecruzam, os abraços, os reencontros, as saudades, os olhares nostálgicos…enfim, a vida feita um romance quase. Porque, para já, só circulam ainda vagões de carga, faltando-lhes a alma humana, os gritos das pessoas, o largo sorriso do nosso povo.

Mas há vida já na extensa linha férrea, que vai de Luanda à secular vila do Dondo. Em troca triunfal com o silêncio de morte que cobriu o caminho durante os anos do conflito bélico.

Com a máquina de ferro que corta o sertão imenso, vencendo as centenas de quilómetros que afastavam as centralidades umas das outras, chega o anúncio de que os tempos se transformam, mudam, se recompõem.

É cada vez mais a guerra que se enterra na lembrança, na crueldade do atraso que induziu por demasiado tempo, para em seu lugar se erguer um novo capítulo no ingente esforço de reconstrução.

Certamente este é um tempo de soberbos ganhos, em que gerações inteiras perderam o contacto com o comboio sem nunca o terem tido antes de modo efectivo, a não ser pelo relato nostálgico de pais e avôs, todos eles passageiros felizes de gratas travessias de um passado que os abalançou para a modernidade.

Os jovens, os adolescentes, as crianças, vão ter o bendito privilégio de conhecer, finalmente, essa relíquia da grande revolução industrial da Humanidade, símbolo excelso da luta titânica dos homens pelo domínio da Natureza ou, no mínimo, de parte dela. O comboio, para centenas de milhares de novos cidadãos nascidos nas povoações que se sedimentaram nos pequenos oásis de progresso ao longo da via principal e seus ramais, deixa de ser a imagem romanceada do cinema e apenas as fotografias estampadas nos manuais escolares, para ser testemunho vivo de um mundo que também lhes pertence por direito, o da modernidade, o das facilidades na mobilidade humana, o do avanço tecnológico.

Encurta-se com a genial máquina de ferro não apenas a distância física entre localidades que precisam enormemente do intercâmbio de actos, comerciais e de afectos, mas também o fosso psicológico entre a cidade e o campo, afinal um dos mais actuais dilemas nas condições concretas de existência das nossas nações em África.

O comboio é muito mais do que as suas carruagens transportam; é muito mais do que contornos físicos e formato, pujança e imagem de poderio do aço sobre a paisagem verde. O comboio é cultura, é renascimento, é vida, é poesia de um povo inteiro que se sente vencedor na selva de adversidades que faz o seu percurso existencial. Voltar a escutar o apito imperial e a passada metálica sobre os carris em estações ontem tomadas pelas teias de aranha em Catete, Maria Teresa, Zenza do Itombe, Dondo, é um momento infinitamente glorioso, para lá de toda a valia económica e social que a ligação representa. A festa proporcionada pelos Caminhos de Ferro de Luanda com a viagem experimental de ontem do comboio de carga entre Luanda e Dondo deve ser vista neste prisma, antes de qualquer outro. Um digno e merecido “conseguimos!” que deve encher de orgulho todo e qualquer angolano.

Luís Fernando
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  1. Pereira
    2010-07-24 02:53:04
    Excelente artigo escrito com muita garra a fazer-nos sentir cá longe aquilo que o articulista "vê" no velhinho comboio Luanda-Dondo. Meu Deus, quanta saudade. Barreiro-Portugal

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África, o planeta Terra e a Copa

segunda-feira
12-07-2010
Edição 87

Chegam ao fim domingo quatro semanas de intensa competição futebolística, a reedição de um acontecimento feito metade festa e metade drama que mobiliza os humanos em ciclos de quatro anos desde a primeira experiência, em 1930.

Significa dizer, portanto, que vai terminar a primeira Copa do Mundo de Futebol disputada em África.

É hora de celebrar, antes de qualquer outro triunfo, a soberba vitória da corrente afro-optimista, tendo à cabeça o país organizador, a África do Sul. De facto, está dada uma machadada tremenda sobre as cabeças de todos quantos, distribuídos pela geografia deste planeta imenso, vivem agarrados à ideia calcinada pelo tempo de que África só dá fracasso.

A décima nona edição da fase final do Campeonato do Mundo da FIFA não tem nada de que se queixar em termos de condições organizativas.

Exceptuando certamente pequenos pormenores que em regra apenas incomodam os mais caprichosos e os que fazem da exigência elevada ao limite um modo de vida, muitas vezes só mesmo para ser diferente, exceptuando isso, dizíamos, tudo o que se situou no campo da macrorealização, mostrou estar à altura das encomendas, das necessidades.

Não será claramente o atraso pontual da mudança de um lençol ou de uma toalha, ou a demora do empregado com a conta do almoço no restaurante, entre muitas outras minudências, que nos permite aferir sobre a boa ou má organização de um evento com a dimensão de uma Copa do Mundo. As falhas susceptíveis de anularem uma avaliação positiva num caso destes têm de se colocar ao nível dos factores estruturantes que sejam capazes de comprometer a realização de uma partida de futebol, perigar a segurança de uma selecção inteira ou outra pequena hecatombe.

Como se sabe, nada disso aconteceu e o nível de satisfação geral de quem está ou esteve em terras sul-africanas por ocasião do torneio, é por isso consensualmente alto.

A menos que as poucas horas que nos restam até à consagração este domingo de um novo campeão do Mundo tragam algo de excepcionalmente grave, o que se pode e deve dizer é que tivemos uma edição da Copa da FIFA disputada dentro da maior normalidade. Logo, está aberto o caminho para que os que sempre se opuseram a uma experiência destas no continente negro se rendam e comecem a acreditar que há tempo para tudo e aquele em que se pensava que África só dava Tarzan e animais da selva para animarem os circos dos ricos, já só existe na memória de filmes a preto e branco. Ainda que algumas performances de lideranças políticas mal adaptadas aos ventos da mudança continuem a ser perfeitas nódoas caídas nos melhores panos… Passando para a competição em si, rejubilemos com o facto de a paixão do futebol e os ingredientes que a tornam única, se ter mantido incólume na sua aventura africana. O jogo da bola continuou a ter na imprevisibilidade e nos pontapés na lógica, nas estatísticas e na experiência acumulada, o seu mistério mais forte e mais inspirador. Na verdade, o grande factor que enche os estádios, pois soubéssemos todos por antecipação os resultados dos jogos ou se ganhassem sempre as formações teoricamente mais cotadas, e teríamos nós uma modalidade desportiva absolutamente monótona e incapaz de conduzir os adeptos aos níveis de paroxismo e loucura que lhe fazem a essência e a longevidade.

E o futebol não precisa de muito mais para ser a festa do povo, das multidões, do planeta inteiro: organização e despique, o tal que faz uma Inglaterra acabar goleada ou uma Itália, campeã em título, ser última do seu grupo e retornar a casa de crista descomposta.

Até Brasil 2014, para uma nova edição da ruidosa loucura planetária!

Luís Fernando
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  1. Gaspar José
    2010-07-15 12:16:35
    Manter-se silencioso perante uma redacção que reflecte a qualidade do nosso jornalismo, cujo texto reporta-nos a primeira organização africana da Copa do Mundo, seria uma atitude desprovida do sentido de cidadania, pelo que me resta apenas desejar parabéns ao luís Fernando e toda sua equipa. Faço votos de êxitos na árdua mas nobre profissão, da qual dependemos muito para nos mantermos informados sobre o que ocorre pelo país e no mundo. Aproveito a ocasião para referir que viciei-me pelas páginas do O País através do site www.opais

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Editorial

Luís Fernando

Director do jornal O País, passou pela direcção do Jornal de Angola e é autor de vários romances.

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